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Noite no teatro

A cadeira de expectador me prende como uma cadeira de rodas. Antes fosse uma cadeira de rodas, móvel e impetuosa. Meu assento almofadado é tão estático quanto os olhos úmidos da platéia. A arte, a vida e o movimento interpretam a si mesmos no palco, e somente a arte de observar a tudo, quieto e pálido, executa-se por meio de minha alma trêmula.


Cabe a mim invejar o artista, rei e mago do teatro, cujo teto são estrelas místicas e a bruma amórfica seu chão. Entra a cantora com suas pernas cálidas, voz e saia de veludo e lábios elásticos. Pareço flutuar em uma clave de sol, subindo meio tom a cada nota sustenida, movendo-me, sem rumo, ao som de semifusas.


Minha consciência anula-se, como se ébria, e címbalos dourados com seu som de éter espalham-se no ar numa cadeia cíclica. Minha pele se enrubesce e responde à magnética melodia com um arrepio – cada pêlo se faz também platéia, aplaudindo de pé ao espetáculo onírico. E a lua dança no céu de ébano.


Afasta-se de mim todo caráter sólido, altero minha freqüência para tons amenos de ciano ingênuo, unindo à meia luz desse castelo clássico a minha forma turva de fantasma cósmico. Espero impregnar-me de texturas tímbricas, fazer-me um tijolo da parede sônica, me debater nas ondas de um hammond aquático.


Faz-se silêncio.


A platéia se levanta e meu banco está vazio. Austero, me debruço na abóboda celeste. E não sou mais eu, mas a arte em mim.



Comentários

  1. Muito massa, só que não é pra qualquer um ler não, o cara já tem que ler bastante, e eu não tenho lido tanto. Mas fico muto belo.

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